Um pequeno conto olímpico…

Estamos no 4o set e o Brasil vai vencendo os EUA por 2 sets a 1. Placar: 24×21 para o Brasil.

O saque que poderá nos dar o tricampeonato olímpico é de Murilo. Quando alçar a bola para servir a pulsação será acompanhada, a cada segundo, por 200 milhões de batimentos. A bola sobe nos remetendo ao pavilhão nacional que será hasteado para o mundo inteiro ver daqui a instantes.

Murilo salta. E com ele saltamos todos nós sobre todos os problemas que enfrentamos: o cansaço, as incertezas, a rotina. O esforço é enorme. Mas a gente dá conta! Uma nação está saltando junto tirando o Brasil do chão. Suor, dedicação e a certeza de acreditar sempre.

Ao golpear a bola, viajamos juntos num destino incerto: rede? Out!!! Ace? Pois é, como tudo na vida nem sempre sabemos para onde o saque vai…Mas encaramos a jornada sabendo que aí está a graça da partida que disputamos diariamente. A bola segue sua trajetória levando uma eternidade para ultrapassar o primeiro obstáculo. Sim, o primeiro degrau: o primeiro treino, a dor, as incontáveis sessões de fisioterapia. E a saudade da família que faz com que este, o primeiro, seja o degrau mais alto. Será que fará diferença lá na frente?

Ah! A bola…Portadora da emoção incontrolável de todos nós…O destino ainda nos reserva sua sutileza no momento em que ela caprichosamente toca a fita da rede. O silêncio geral nos permite “ouvir” o pensamento de Bernardinho paralisado ao lado da quadra acompanhando a bola apenas com os olhos…Neste momento seus neurônios se perguntam: “E aí pessoal, vamos “matar” o Murilo ou vamos comemorar o ace?” Neurônios de Bernardinho não tem vida fácil…

A rede balança e a bola corre sobre a fita buscando seu equilíbrio. Primeira certeza:   ela sabe que vai cair…de um lado ou de outro…Segunda certeza? Este sofrimento vai acabar. Logo ela estará à beira da quadra pronta para entrar em ação novamente. Alguma semelhança com a nossa existência? A bola não tem opção e tem que aceitar a aventura que lhe é apresentada à cada ponto jogado. “Poxa, bem que podiam ter facilitado a minha vida. Logo agora? Aqui estou eu rebolando no alto da rede e o mundo inteiro olhando para mim…Seja o que Deus quiser…”

E nós, torcedores, pensando: “Seja o que Deus e essa bendita bola quiserem…”

E sem perder a fé e com um pouquinho de ginga a bola se joga para o lado adversário mergulhando sem medo de ser feliz. O chão se aproxima e o impacto é inevitável. A bola, sem opção mais uma vez, sabe que vai doer. Mas, desta vez irá valer a pena: “Vale ouro! Melhor caprichar…Vou mirar a linha…”

Nossa personagem toca a linha lateral branca da quadra adversária e dispara nossas reações mais instantâneas. Gritos, choro, sorrisos…O saque de Murilo nos proporciona uma confusão momentânea e uma nova visita ao cardiologista. Os neurônios de Bernardinho desmaiam milionésimos de segundos antes do ponto final.

Hino, bandeira, pódio, o louro da coroa, o ouro da medalha, o dever cumprido. Enfim, a glória perseguida e motivo de tantas renúncias.

E que tal viver tudo isso duas vezes em menos de 24 horas? Impossível, duas bolas não caem no mesmo lugar… Não??? Na noite anterior, nossa protagonista, a bola, fica num bloqueio de Fabiana, toca a linha da quadra adversária e as meninas do Brasil conquistam o ouro vencendo a Rússia. Bicampeãs olímpicas!

Os jogos terminam, as cerimônias também. As pessoas se vão, as luzes do Earl’s Court se apagam. Dentro de um carrinho, uma bola descansa feliz:

“Em 2016, será lá em casa…!”
Este texto é uma homenagem aos atletas e a todos os profissionais que me permitem viver a emoção do voleibol de um ângulo privilegiado no seu dia a dia, em seus clubes e na seleção. Boa sorte aos nossos times olímpicos em nome de todos os amantes do voleibol!

Marcelo Claudino é Consultor Financeiro e assessora vários atletas do voleibol.

 

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